5. Compulsão por Trabalho (Workaholismo):
O termo workaholic deriva da palavra inglesa workaholism, criada por analogia com alcoholism (alcoolismo), uma vez que ambas as condições compartilham dois domínios de sintomas: compulsão e obsessão. Em português, a tradução mais usual é Compulsão por Trabalho (CT), embora essa expressão não abarque adequadamente o componente obsessivo que caracteriza o fenômeno.
5.1. Domínio Compulsivo:
O aspecto compulsivo da CT é marcado por uma dedicação excessiva e desproporcional às atividades laborais. A pessoa direciona quase toda sua energia ao trabalho, com prejuízo evidente em outras esferas da vida, como lazer, vida social e relacionamentos interpessoais.
Importa destacar que não se trata apenas de elevado engajamento ou comprometimento profissional. O que se observa é uma busca incessante por escelente desempenho e superação, geralmente desvinculada de satisfação pessoal pelas metas alcançadas. Mesmo diante de conquistas, o indivíduo raramente experimenta prazer ou reconhecimento interno, estabelecendo imediatamente novos objetivos, em um ciclo contínuo de insatisfação.
Essa dinâmica diferencia a CT de um perfil apenas proativo ou diligente. O indivíduo com CT tem sua identidade e rotina quase que exclusivamente organizadas em torno do trabalho, comprometendo seu envolvimento em outras dimensões da vida.
5.2. Domínio Obsessivo:
No domínio obsessivo, o indivíduo mantém pensamentos persistentes e intrusivos relacionados ao trabalho, mesmo em momentos que deveriam ser destinados ao descanso ou ao lazer. Ainda que não esteja efetivamente desempenhando atividades laborais, permanece cognitivamente engajado com tarefas, prazos, metas e preocupações profissionais.
Essa ruminação pode vir acompanhada de sentimentos de culpa por “não estar produzindo” durante períodos de lazer e descanso, evidenciando o nível de internalização do valor trabalho como central à sua autoestima e autovalidação.
5.3. CT pode ser considerado um vício ou um tipo de dependência?
A CT pode, sim, ser compreendida como uma forma de dependência comportamental. Trata-se de um padrão repetitivo, persistente e difícil de controlar, mesmo diante de consequências adversas à saúde física, mental, aos relacionamentos e à qualidade de vida.
Alguns autores propõem classificá-la dentro do espectro das adições comportamentais, visto que preenche os critérios para dependência/adicção:
| Compulsão: dificuldade em interromper ou regular a frequência, duração e intensidade do comportamento. |
| Tolerância: necessidade de engajar-se em volumes crescentes de trabalho para alcançar alívio de tensão ou sensação de eficácia. |
| Síndrome de abstinência: sintomas psíquicos e, por vezes, físicos, durante os períodos em que o indivíduo se afasta das atividades laborais. |
| Tempo excessivo dedicado: gasto significativo de tempo com o trabalho em si, seu planejamento ou recuperação dos efeitos dele. |
| Persistência apesar dos prejuízos: manutenção do comportamento mesmo frente a danos evidentes à saúde e à vida pessoal. |
Diferentemente de outras formas de dependência, a CT é frequentemente reforçada por validação social. O perfil workaholic costuma estar associado ao sucesso profissional, reconhecimento e prestígio, o que contribui para a perpetuação do comportamento.
Contudo, os custos pessoais são significativos. Indivíduos com CT frequentemente apresentam relações interpessoais frágeis, isolamento social, distúrbios do sono, uso abusivo de substâncias psicoativas, sintomas depressivos e ansiosos, fadiga, irritabilidade, sensação de vazio, inquietação e queda no desempenho cognitivo e afetivo.
Cabe salientar que as orientações terapêuticas indicadas para indivíduos com diagnóstico de Síndrome de Burnout também se aplicam, em grande parte, àqueles que apresentam CT, dada a sobreposição de sintomas e o impacto sobre o funcionamento psicossocial.
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Dr. Daniel Maffasioli Gonçalves
Médico Psiquiatra em Florianópolis, Mestre, PhD
CRM/SC 20397–RQE/SC 11560