3. Quem está mais vulnerável à Síndrome de Burnout (SB) e à Compulsão por Trabalho (CT)?
Dois traços de personalidade têm sido consistentemente associados à maior incidência de Síndrome de Burnout e Compulsão por Trabalho: neuroticismo e perfeccionismo.
O neuroticismo é um traço de personalidade caracterizado por instabilidade emocional e tendência a supervalorizar experiências negativas. Pessoas com esse perfil reagem de forma intensa a frustrações cotidianas e costumam focar sua atenção em perdas, erros, decepções e fragilidades. Além de interpretar a realidade sob uma ótica pessimista, tendem a adotar o mesmo olhar em relação a si mesmas, minimizando conquistas e aspectos positivos de sua trajetória, o que frequentemente resulta em baixa autoestima.
Outro traço característico é o padrão de pensamento catastrofista: preocupam-se de forma excessiva com eventos futuros, superestimam as consequências de pequenas falhas e ignoram o fato de que a maioria de suas apreensões jamais se concretiza. Vivem sob o temor constante de errar e demonstram baixa tolerância à crítica, à frustração e à imprevisibilidade. Como consequência ,são pessoas que necessitam estar continuamente no controle de tudo e de todos.
Costumam ter dificuldade em se recuperar emocionalmente após contratempos, prolongando o sofrimento e a ruminação. Como resultado, apresentam elevada vulnerabilidade ao estresse, sendo mais suscetíveis ao desenvolvimento de quadros ansiosos e depressivos.
O perfeccionismo, por sua vez, é um traço de personalidade que leva a pessoa a buscar incessantemente padrões extremamente elevados de desempenho. Essa busca pode estar associada tanto a uma exigência interna quanto ao desejo de atender às expectativas dos outros. O perfeccionista sente a necessidade de fazer tudo de forma impecável e, de preferência, com rapidez, o que frequentemente o leva à exaustão física e psíquica.
Mesmo sabendo que a perfeição é inatingível, mantém a ilusão de que ela é possível e vive com a sensação de que nunca faz o suficiente. Em muitos casos, o perfeccionismo reflete baixa autoestima. Seu pensamento é frequentemente dicotômico: ou é perfeito, ou é um fracasso completo — o que alimenta a autocrítica e a percepção de incompetência. Irrita-se facilmente com erros ou atrasos, adota padrões rígidos de conduta e tende a ser altamente competitivo. Mesmo ao atingir suas metas, raramente sente satisfação, pois já está mentalmente envolvido com o próximo objetivo.
Além desses traços de personalidade, outros fatores de risco aumentam a vulnerabilidade à SB e à CT:
| . Falta de controle sobre as demandas profissionais. |
| . Ambiente de trabalho tóxico ou pouco acolhedor. |
| . Exigências desproporcionais aos recursos disponíveis. |
| . Falta de reconhecimento ou suporte institucional. |
| . Rede de apoio social fragilizada. |
| . Presença atual ou pregressa de transtornos psíquicos. |
| . História familiar de transtornos psíquicos. |
| . Inserção em determinadas categorias profissionais, como executivos, lideranças corporativas, profissionais da saúde, educadores, profissionais do setor bancário e de áreas de atendimento ao público |
Importante ressaltar que, embora alguns grupos ocupacionais estejam mais expostos, nenhuma categoria profissional está imune a essas condições.
4. Definição da Síndrome de Burnout:
Na prática psiquiátrica, os dois manuais diagnósticos mais utilizados são a CID-11 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 11ª Revisão) e o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição, Texto Revisado).
Contudo, a SB é contemplada apenas pela CID-11, não estando incluída no DSM-5-TR.
É importante destacar que os critérios atualmente utilizados para o diagnóstico da SB são, em essência, os mesmos propostos por Christina Maslach nos anos 1970 — tendo prevalecido sua definição sobre a de Herbert J. Freudenberger.
Apesar disso, de fato existe uma falta de consenso entre pesquisadores sobre a própria definição da síndrome e a caracterização de seus sintomas. Estima-se que mais de 140 sintomas distintos já tenham sido associados à condição, o que evidencia o estágio ainda embrionário do seu desenvolvimento conceitual em comparação com outros transtornos, como o Transtorno Bipolar ou o Transtorno de Ansiedade Generalizada.
Apesar de reconhecida como uma condição de saúde, a SB não é classificada como um transtorno psíquico, como será detalhado a seguir.
4.1. Critérios diagnósticos da SB segundo a CID-11:
A CID-11 descreve a SB como um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no ambiente de trabalho. Para o diagnóstico, é necessário que os quatro critérios abaixo estejam presentes simultaneamente:
| 1. Sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia: Sensação persistente de cansaço físico e mental, que não melhora com o repouso. Reflete o desgaste provocado pelo estresse contínuo, que compromete os recursos emocionais, físicos e cognitivos do indivíduo. |
| 2. Aumento da distância mental em relação ao trabalho: Uma forma de afastamento psíquico, frequentemente usada como mecanismo de defesa diante de um ambiente percebido como ameaçador ou frustrante. |
| 3. Sentimentos de negativismo ou cinismo em relação ao trabalho: Atitudes marcadas por indiferença, desprezo ou hostilidade direcionadas ao próprio trabalho, aos colegas ou ao ambiente profissional em geral. |
| 4. Sensação de ineficácia e falta de realização: Percepção persistente de inutilidade, incompetência ou fracasso no desempenho profissional, comprometendo diretamente a autoestima e o senso de propósito. |
Diferentemente da proposta original de Maslach — que considerava suficiente a presença de apenas um dos critérios, a CID-11 exige a manifestação de todos os quatro para confirmação diagnóstica.
4.2. Algumas considerações essenciais sobre o diagnóstico de SB:
4.2.1. A SB é um transtorno psíquico?
Não. A SB não está listada no Capítulo 6 da CID-11, que reúne os transtornos psíquicos definidos por consenso de especialistas. Ela figura em outra seção: “Fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com os serviços de saúde”.
4.2.2. A SB pode ser diagnosticada na presença de um transtorno psíquico?
Na CID-11, cada condição médica inclui critérios de exclusão — ou seja, o diagnóstico só pode ser estabelecido após a exclusão de uma ou mais condições que possam justificar os sintomas. Por exemplo, para o diagnóstico de Transtorno Depressivo, é necessário excluir previamente o Transtorno Bipolar. No caso da SB, o desafio é ainda maior: seu diagnóstico requer a exclusão de todos os demais transtornos psiquiátricos que possam explicar o quadro clínico. Essa exigência torna o processo diagnóstico mais complexo e contribui para a subnotificação da síndrome na prática clínica.
Entretanto, esse critério rígido de exclusão entra em conflito com o entendimento contemporâneo da psiquiatria, segundo o qual a maioria das condições psíquicas ocorre em comorbidade. Na prática clínica, é extremamente raro encontrar pacientes com SB sem a presença concomitante de outros quadros, como Transtornos de Ansiedade. A exigência de exclusividade diagnóstica, portanto, não apenas dificulta o reconhecimento formal da SB, como também desconsidera a complexidade e a sobreposição sintomática que marcam grande parte dos casos atendidos na prática psiquiátrica.
4.2.3. Seria possível admitir duas formas clínicas de SB?
Sim. Na minha leitura, a CID-11 descreve uma forma de SB baseada no distanciamento do trabalho, enquanto a proposta de Freudenberger retrata um quadro marcado por envolvimento excessivo. Ambas compartilham o elemento central da síndrome: a exaustão extrema provocada pelo estresse crônico laboral.
4.2.4. Por que considerar essas duas formas?
Porque o ponto nevrálgico da SB é a exaustão prolongada e recorrente, sem períodos adequados de recuperação. Essa condição pode se manifestar tanto em indivíduos que se afastam do trabalho como forma de defesa psíquica (como propõe Maslach), quanto naqueles que mergulham compulsivamente no trabalho até o colapso (como descreve Freudenberger).
Para continuar lendo, clique aqui.
Para contato via WhatAapp, clique aqui.
Atendimento presencial e online.
Acompanhe o perfil no Instagram: www.instagram.com/danielpsiquiatrafloripa.
Dr. Daniel Maffasioli Gonçalves
Médico Psiquiatra em Florianópolis, Mestre, PhD
CRM/SC 20397–RQE/SC 11560