2. Um breve histórico:
O termo Burnout foi introduzido pelo psicólogo germano-americano Herbert Freudenberger, que, nas décadas de 1960 e 1970, atuava no Free Clinic Movement — um grupo de profissionais de saúde que se mobilizava para oferecer atendimento gratuito a pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Engajado nesse movimento, Freudenberger fundou uma clínica de reabilitação no East Village, em Nova Iorque. Para garantir sua subsistência, manteve paralelamente sua clínica privada. Assim, dividia seus dias entre atendimentos pagos e gratuitos, frequentemente dedicando mais de quinze horas diárias ao trabalho.
A clínica tornou-se uma verdadeira obsessão em sua vida. No livro Burn-out: The High Cost of High Achievement, ele relata que, no início do projeto, não previa os inúmeros desafios que enfrentaria, desde a formação de uma equipe voluntária até a obtenção de financiamento para manter o funcionamento da clínica.
Meses depois, começou a apresentar sinais claros de exaustão, embora os negasse sistematicamente. Amigos comentavam sobre sua súbita e visível perda de peso e seu estado físico comprometido. Até mesmo seus pacientes expressavam preocupação com sua aparência e saúde mental.
Freudenberger tornava-se cada vez mais irritadiço e cansado. Afastou-se da família, dos amigos e de qualquer atividade de lazer ou descanso. Não tirava férias. Com o tempo, percebeu que outros colegas envolvidos em clínicas gratuitas apresentavam sintomas semelhantes. A partir de sua experiência pessoal, passou a investigar a relação entre trabalho excessivo e sofrimento psíquico.
Em 1974, publicou o artigo Staff Burnout na revista Journal of Social Issues, voltada a questões sociais e políticas públicas. Foi nesse trabalho que apresentou pela primeira vez a Síndrome de Burnout (aqui abreviada como SB).
O termo burnout significa esgotamento completo de combustível em motores, como ocorria em aviões ou nos primeiros foguetes, e era amplamente utilizado em contextos técnicos, especialmente na engenharia aeroespacial e aeronáutica. Essa escolha metafórica expressa com precisão a ideia central do que Herbert Freudenberger entendia por Síndrome de Burnout: um estado de esgotamento extremo resultante da exigência contínua e excessiva de energia, força ou recursos no ambiente de trabalho.
No artigo, Freudenberger descreve os sintomas da condição, organizando-os em duas categorias:
| . Físicos: exaustão, fadiga persistente, resfriados frequentes, dores de cabeça, distúrbios gastrointestinais, insônia e falta de ar. |
| . Psíquicos: raiva, irritabilidade, impulsividade, sintomas paranoides (como a sensação constante de estar sendo observado e julgado), sentimentos de onipotência (que levam à inflexibilidade e teimosia), além de baixa tolerância à frustração. |
Em 1977, Christina Maslach e Ayala Pines publicaram o artigo The Burn-Out Syndrome in the Day Care Setting, no qual propuseram novos critérios diagnósticos para a SB. A partir desse momento, coexistem duas concepções distintas da síndrome: a de Freudenberger e a de Maslach. Esta última, embora alvo de críticas, é a que acabou prevalecendo e é oficialmente adotada por pesquisadores do assunto.
Propuseram que a presença de qualquer um dos três critérios a seguir já seria suficiente para o diagnóstico:
| a. Exaustão emocional e física: sensação progressiva de cansaço, perda de energia, dificuldades de concentração, apatia e irritabilidade relacionados ao trabalho. |
| b. Desmotivação e cinismo: sentimento constante de que o trabalho não tem valor ou que o esforço nunca é suficiente ou reconhecido, levando ao distanciamento emocional e, por vezes, à hostilidade em relação a colegas, clientes ou supervisores. |
| c. Redução da eficácia profissional: percepção de incompetência e fracasso, queda da autoestima e sensação de vazio, culminando em baixa produtividade e agravamento dos demais sintomas. |
É importante observar a diferença fundamental entre a visão sobre a SB de Maslach e a de Freudenberger: para Maslach, o distanciamento em relação ao trabalho é um elemento central da síndrome. Já para Freudenberger, o envolvimento excessivo é o aspecto predominante. Como veremos adiante, foi a concepção baseada no distanciamento que acabou se consolidando como critério diagnóstico para SB.
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Dr. Daniel Maffasioli Gonçalves
Médico Psiquiatra em Florianópolis, Mestre, PhD
CRM/SC 20397–RQE/SC 11560