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Burnout e Compulsão por Trabalho – final

6. Tratamento:

Apresento aqui uma descrição dos tratamentos propostos em consultório.


6.1. Tratamento medicamentoso:

Nem sempre será necessário o uso de medicamentos. Entretanto, essa pode ser uma poderosa ferramenta, ao menos a curto prazo. Nos casos em que se identifica sintomas depressivos e/ou ansiosos impactantes, por exemplo, o uso de antidepressivos está indicado. Nos casos de insônia, medicamentos que auxiliam na indução e/ou manutenção do sono também podem ser usados.

Nota: A decisão pelo uso ou não de medicamentos sempre será em conjunto, onde psiquiatra e paciente decidem qual o melhor rumo a seguir.


6.2. Tratamento não medicamentoso:

O tratamento não medicamentoso envolve a técnica psicoterápica denominada de Psicoeducação, mudanças no estilo de vida e mudanças no processo laboral.

Porém, a primeira perfunta a fazer é: este trabalho ainda tem sentido para mim? Meus valores e princípios ainda estão alinhados com o que faço todos os dias?

Se a resposta for não para qualquer uma dessas questões, talvez seja o momento de repensar o caminho, e, com coragem e gentileza consigo mesmo, redefinir a direção a seguir.


6.2.a) Psicoeducação:

No início, sempre utilizamos a Psicoeducação. Trata-se de uma abordagem psicoterapêutica que ajuda o paciente a compreender como o transtorno se manifesta, reconhecer sintomas e identificar fatores que desencadeiam ou agravam o quadro.

Além disso, avaliar questões sobre o tratamento medicamentoso, quando for o caso, considerando tópicos como o que esperar do(s) medicamento(s) usado(s), efeitos colaterais possíveis, tempo de tratamento, etc.


6.2.b) Mudanças no estilo de vida:

. Prática de exercícios físicos: recomendam-se exercícios físicos ao menos três vezes na semana. E qual o melhor tipo? Aquele que lhe proporcionar mais prazer: caminhadas, corridas, musculação, jogar futebol, vôlei ou tênis, praticar natação ou qualquer outro tipo.

. Dieta saudável: para saber mais, clique aqui.

. Técnicas de relaxamento: para saber mais, clique aqui.

. Restabelecer um padrão saudável de sono. Para saber mais, clique aqui.


6.2.c) Mudanças no processo laboral:

. Identificar tarefas críticas: liste as atividades prioritárias e aquelas que podem ser delegadas ou adiadas. Isto é fundamental, a fim de evitar a exaustão e a sensação de frustração por nunca conseguir cumprir com sua agenda. Costumo orientar os pacientes a categorizar as tarefas em três níveis: alta prioridade (devem ser realizadas hoje), média prioridade (podem ser realizadas em uma semana) e baixa prioridade (podem ser realizadas nos próximos quinze dias).

. Eliminar tarefas desnecessárias: avalie se todas as suas atividades laborais são realmente essenciais para os seus objetivos e procure não se envolver no que não for fundamental para o andamento do seu trabalho.

. Criar metas realistas: estabeleça objetivos alcançáveis para evitar a frustração.

. No caso de cargos de gerência e supervisão, delegar tarefas: para tanto, reconheça as habilidades de cada membro de sua equipe. Confie no potencial dos colegas ou subordinados e delegue responsabilidades adequadas, dando-lhes autonomia. Entretanto, não caía em armadilhas: é comum que tarefas sejam delegadas e deixadas totalmente a cargo de subordinados ou colegas. Nestes casos, corre-se o risco de a tarefa não ser feita corretamente ou dentro do prazo, solidificando em você a crença de que só você pode realizar toda e qualquer tarefa. Assim, sempre supervisione o que foi delegado. E não esqueça: ofereça capacitação continuada a todos.

. Comunicação clara: facilite um ambiente em que todos possam expressar suas dificuldades, mas que também entendam quais são suas responsabilidades.

. Tempo para descanso: permita-se ter pausas durante o dia para relaxar ou então realizar alguma atividade que lhe dê prazer. Não deixe de tirar férias, se possível mais de uma vez ao ano. Reserve tempo para o lazer, sendo sugerido que pelo menos um dia na semana seja destinado apenas ao descanso. Nestes períodos, defina períodos curtos de tempo para estar conectado a redes sociais e aplicativos de mensagens.

. Redefina seus propósitos: será que preciso chegar tão longe em tão pouco tempo como planejei? Em geral, não.


6.2.d) Outras opções:

Terapia Cognitivo-comportamental (TCC): A TCC inicia com a identificação e posteriormente técnicas de modificação de pensamentos disfuncionais, que são interpretações distorcidas, exageradas ou negativas sobre si mesmo, os outros e a realidade, influenciando negativamente nas emoções e comportamentos. Assim, quando temos pensamentos disfuncionais (distorcidos), o resultado serão emoções e comportamentos também disfuncionais, o que, em última análise, são os sintomas.

Nesses casos, a pessoa tende a ignorar evidências que contradizem o pensamento disfuncional. Um exemplo comum é a catastrofização, que ocorre quando um problema relativamente pequeno é interpretado como algo de grande risco ou gravidade, gerando medo intenso de consequências desproporcionais, como grandes perdas ou prejuízos.

A TCC também trabalha com o reforço de comportamentos saudáveis e promoção do bem-estar e qualidade de vida.

Terapia do Esquema: Esquemas são estruturas cognitivas que contêm as crenças mais profundas sobre nós mesmos, os outros e o mundo. Quando induzem a avaliações incorretas e enviesadas da realidade, provocando emoções, reações corporais e comportamentos negativos, são chamados de disfuncionais.

Os pensamentos disfuncionais derivam de crenças centrais disfuncionais. Por exemplo, uma pessoa que acredita ser incompetente e nunca ser boa o suficiente produzirá pensamentos disfuncionais compatíveis com isso. Quando receber uma crítica, poderá dramatizar em demasiado a situação e entender isso como uma comprovação de que realmente não é capaz. Ao contrário, alguém que acredite nas suas capacidades, poderá interpretar a crítica como algo comum, simplesmente uma sinalização de que algo pode ser feito de forma diferente.


7. Estou com SB, devo me afastar do trabalho?

Caso você não esteja em uma situação insuportável, a resposta é NÃO.

O afastamento do trabalho em geral não resolve o problema. Isto porque acaba por criar uma sensação permanente de preocupação e ansiedade pelo fato de não estar trabalhando. Assim, o afastamento, que serviria para o descanso, apenas causa prejuízos.

Por fim, ao se afastar do trabalho, as orientações para mudanças no processo laboral não poderão ser aplicadas.


8. Comorbidades:

A ocorrência de algum outro transtorno psíquico concomitantemente (comorbidade) com SB e Compulsão por Trabalho (CT) É muito comum, embora, oficialmente, quando há um transtorno psíquico diagnosticado não se poderia considerar SB, como mencionado anteriormente. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que transtornos psíquicos ocorrendo isoladamente fossem a regra. Chegava-se a incentivar o diagnóstico único. Mais recentemente, tem-se demonstrado, através de estudos epidemiológicos, que comorbidade é muito comum em psiquiatria.

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9. Referências bibliográficas:

1. FREUDENBERGER, H. J.; Richelson, G. Burn-out: the high cost of high achievement. 1a ed. New York: Bantam Books, 1980.

2.  FREUDENBERGER, H. J. Staff Burn-Out. Journal of Social Issues, 30(1), p. 159–165. 1974a.

3. EDÚ-VALSANIA, S; LAGUÍA, A; MORIANO, JA. Burnout: A Review of Theory and Measurement, 19(3), p. 1780. 2022. doi: 10.3390/ijerph19031780. PMID: 35162802; PMCID: PMC8834764.

4. RAHIM, MA. A comparative study of entrepreneurs and managers: stress, burnout, locus of control, and social support. Journal of health and human services administration, 18(1), p.: 68-89. 1995.

5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems, Eleventh Revision (ICD-11). 11th ed. Genebra, 2019. Disponível em: https://www.who.int/classifications/classification-of-diseases.

6. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition – Text Revision. 5a. ed. Rev. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing. 2022.

7. HAN, B-C. The Burnout Society. 1a. ed. Stanford University Press, 2015.

8. WIENS, K. Burnout Immunity: How Emotional Intelligence Can Help You Build Resilience and Heal Your Relationship with Work. 1a. New York, 2024.

9. PLUMBY, C. Burnout: How to Manage Your Nervous System Before it Manages You. New York: Balance, 2024.


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Dr. Daniel Maffasioli Gonçalves
Médico Psiquiatra em Florianópolis, Mestre, PhD
CRM/SC 20397–RQE/SC 11560

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