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Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) – final

5. Tratamento:

Iniciamos esta seção tecendo alguns comentários sobre o tratamento de crianças e adolescentes. É preciso destacar que o tratamento precoce reduz não somente os sintomas de TDAH, mas também desfechos desfavoráveis atuais ou futuros. Estudos demonstram que o tratamento diminui o risco de desenvolver outros transtornos psíquicos, principalmente na adolescência e na vida adulta. Além disso, outros desfechos negativos podem ser evitados significativamente,. Como exemplos, podemos citar baixo desempenho acadêmico e profissional, baixa qualidade de vida, ocorrência de acidentes de qualquer natureza, uso de substâncias, baixa autoestima, mau desempenho social e uso excessivo de serviços de saúde.

Muitos pais temem que o tratamento afete o desenvolvimento da criança ou adolescente. Do ponto de vista mental, como visto acima, é justamente o oposto. Tratar significa prevenir outro(s) transtorno(s) psíquico(s) no futuro e promover a saúde mental, autoestima, desempenho acadêmico e socialização.

Do ponto de vista físico, além da prevenção de acidentes e de algumas doenças, os estudos não demonstram prejuízos. O que pode ocorrer é um atraso no crescimento, quando a estatura pode ser de um centímetro menos que seria sem medicamentos. Entretanto, os estudos sugerem que este atraso é compensado com o passar do tempo. No final da adolescência, a altura estimada para a pessoa costuma ser atingida.

Em relação ao peso, medicamentos para TDAH podem (ou não) diminuir o apetite. Se isto ocorrer, algumas medidas serão adotadas para não haver emagrecimento ou atraso no ganho de peso corporal.

Caso queria saber mais a respeito, acesse o artigo de revisão Long term methylphenidate exposure and growth in children and adolescents with ADHD. A systematic review and meta-analysis clicando aqui.


5.1) Tratamento medicamentoso:

Está muito claro atualmente que o TDAH decorre de um desequilíbrio na liberação de dopamina e norepinefrina (noradrenalina), especialmente nos lobos pré-frontais. Por este motivo, o tratamento sempre deve ser medicamentoso.

Existem dois grupos de medicamentos:

. Psicoestimulantes: metilfenidato e lisdexanfetamina. O metilfendiato existe em duas versões: liberação imediata, quando deve ser ingerido 2 a 3 vezes ao dia; e liberação prolongada, que deve ser ingerido uma vez ao dia.
. Não psicoestimulantes: pertencem a este grupo a atomoxetina, imipramina, nortriptilina e o anti-hipertensivo alfa-agonista clonidina. Com exceção da atomoxetina, os demais deste grupo são pouco usados.

A primeira escolha é sempre um psicoestimulante, embora em alguns protocolos a atomoxetina também seja.

Abaixo, as vantagens e desvantagens de cada um dos dois grupos:

► Vantagens dos psicoestimulantes: ação rápida, iniciando em torno de meia a uma hora após a ingesta; quando não necessitar do efeito do medicamento sobre os sintomas, basta não utilizar no(s) dia(s) em questão.

► Desvantagens dos psicoestimulantes: geralmente são mais caros; têm potencial de abuso.

► Vantagens dos não-psicoestimulantes: são eficazes durante todo o dia e à noite, embora o efeito seja menor; em geral, são mais baratos; têm menor potencial de abuso.

► Desvantagens dos não-psicoestimulantes: devem ser ingeridos todos os dias; o início de ação pode demorar até duas semanas; a eficácia é menor.


5.2) Tratamento não medicamentoso:

A psicoterapia intensiva (semanal ou quinzenal por 3 meses ou mais) de forma isolada não parece ter, conforme os estudos disponíveis, eficácia significativa nos sintomas de TDAH. Entretanto, em casos mais leves, pode ser tentado apenas o tratamento não medicamentoso, desde que seja muito específico para a condição. No tratamento não medicamentoso são trabalhados elementos da Psicoeducação .


5.2.1) Psicoeducação:

Trata-se de uma abordagem psicoterapêutica em que o princípio é aprender e refletir sobre como o transtorno psíquico se manifesta e identificar sintomas, assim como fatores estressores precipitantes. Além disso, avaliar questões sobre o tratamento medicamentoso, quando for o caso, considerando tópicos como o que esperar do(s) medicamento(s) usado(s), efeitos colaterais possíveis, tempo de tratamento, etc.

► No caso de crianças e adolescentes, familiares e professores devem também receber Psicoeducação.

Como exemplo de Psicoeducação para pais de crianças e adolescentes com TDAH, existe o treinamento parental para controle comportamental. Em linhas gerais, trata-se de um programa baseado em:

Estabelecer regras, rotinas e organização em casa.

Dar instruções claras.

Elogiar o bom comportamento do(a) filho(a) e ignorar comportamentos incorretos sem gravidade.

Planejar e trabalhar com a criança antes de ir a espaços públicos.

Evitar punições.

Usar sistema de pontos para recompensar bom comportamento.


6. Comorbidades:

A presença de outros transtornos psíquicos associados a um TDAH (comorbidades) é comum. Durante muito tempo, prevaleceu a ideia de que os transtornos psíquicos ocorreriam de forma isolada, sendo inclusive incentivada a busca por um diagnóstico único.

No entanto, evidências mais recentes, provenientes de estudos epidemiológicos, têm demonstrado que a comorbidade é muito frequente em psiquiatria. Nestes casos, o conjunto de transtornos deve ser alvo de tratamento, pois, muitas vezes, não tratar um pode impedir a melhora de outro transtorno. Por exemplo, não tratar depressão pode prejudicar o tratamento de TDAH.

Por outro lado, muitas vezes o tratamento de um transtorno pode piorar o(s) outro(s). Desta forma, quando há mais de um transtorno, pode haver a necessidade de se implementar tratamentos em etapas, seguindo protocolos estabelecidos. Por exemplo, no caso de TDAH e Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), inicia-se o tratamento para TAG e depois para TDAH. Tratar TDAH logo no início causa prejuízos no tratamento do TDAH.

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Dr. Daniel Maffasioli Gonçalves
Médico Psiquiatra em Florianópolis, Mestre, PhD
CRM/SC 20397–RQE/SC 11560

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